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Maio/2014 - edição 179
Gary Becker e a Economia do Trabalho

Hélio Zylberstajn – FEA/USP

No último dia 3 de maio, faleceu aos 92 anos Gary Becker, economista, professor da Universidade de Chicago e ganhador do Premio Nobel de Economia em 1992. Becker foi um inovador que utilizou a abordagem econômica para estudar situações que aparentemente seriam estranhas a esta disciplina.

Uma das situações mais controversas é a decisão do número de filhos que a família deseja ter. Para Becker, esta decisão leva em conta o custo dos filhos, vale dizer as despesas para criar filhos proporcionando-lhes qualidade de vida. Segundo Becker, na sociedade urbana e industrial, ter filhos é uma escolha muito cara e por essa razão o tamanho da família se reduziu. Na sociedade rural, o “custo” de criar filhos era muito menor, e as famílias podiam se dar ao luxo de tê-los em grande quantidade. Evidentemente, as decisões familiares envolvem outras dimensões mas não se pode negar que o aspecto econômico é um detalhe que as famílias levam em conta na decisão de ter filhos.

Outro campo no qual Becker comprou muitas brigas foi a criminalidade. Sua abordagem segue a mesma linha: a decisão de cometer um crime leva em conta os custos, ou seja a probabilidade de ser apanhado pela polícia e a severidade da pena. O criminoso coteja os custos com os benefícios para decidir se cometerá o crime. Novamente, pode-se dizer que esta decisão envolve outros aspectos, mas é difícil negar a importância da avaliação de custos e benefícios associada a ela.

Gary Becker elaborou um modelo econômico para a discriminação e foi muito criticado pelos movimentos feministas. Para explicar a diferença de renda entre os gêneros, Becker dizia que as mulheres investiam (na época) menos em capital humano – vale dizer, estudavam menos que os homens e por essa razão tinham produtividade menor. Para Becker, não havia discriminação contra mulheres, pois o diferencial apenas refletia a diferença entre a produtividade dos dois gêneros. No caso da discriminação racial, Becker também tinha modelos econômicos que irritavam os defensores dos direitos civis principalmente porque acreditava que no longo prazo a discriminação desapareceria já que implicaria em custos maiores para os empregadores e consumidores racistas. Os militantes evidentemente nunca se convenceram da capacidade das forças de mercado serem suficientes para eliminar a discriminação.

Para os profissionais que lidam com as questões do trabalho, incluindo os que lidam com questões legais, talvez a contribuição mais relevante de Becker seja sua sugestão da existência de uma dicotomia que opõe dois tipos de conhecimento dos trabalhadores: o conhecimento geral e o conhecimento específico. O conhecimento geral se refere a habilidades e comportamentos que têm mercado, ou seja, que são disputados pelas empresas. Exemplos de conhecimento geral são o conhecimento de línguas, a capacidade de utilizar o computador e os diversos programas de tecnologia da informação, a habilidade de operar máquinas, e assim por diante. Estas formas de conhecimento aumentam a produtividade de quem as detêm e são desejadas no mercado. Os trabalhadores que as possuem podem vendê-las para diversas empresas porque ao utilizá-las vão contribuir para acrescentar valor no processo produtivo. O salário que lhes é oferecido reflete sua capacidade de trazer produtividade ao empregador que o está contratando. A empresa que tem este tipo de trabalhadores precisa pagar salários competitivos, sob pena de perdê-los para outras empresas.

Por outro lado, o conhecimento específico se refere a habilidades que aumentam a produtividade apenas nas empresas onde é utilizado. Uma tecnologia usada apenas em uma empresa, uma forma de produzir típica de um determinado empregador, uma máquina “caprichosa” que precisa de um jeito especial para operar, uma clientela que deve ser visitada regularmente por um representante comercial, todos estes exemplos são situações nas quais os trabalhadores precisam aprender algo que é útil apenas nestas situações. Ao aprender este algo, sua produtividade aumenta, mas esta habilidade não tem mercado, já que as outras empresas não precisam desta forma de conhecimento. A empresa na qual o conhecimento necessário é específico não precisa se preocupar tanto com a concorrência no mercado de trabalho, pois o conhecimento de seus trabalhadores é valioso apenas enquanto eles forem seus empregados.

Qual a implicação da dicotomia de Becker? Simples e profunda ao mesmo tempo: em atividades nas quais predomina o conhecimento geral, a força de trabalho é menos estável e menos comprometida com seus patrões (e vice-versa). Já nas empresas nas quais o conhecimento específico é importante, a relação de trabalho é mais estável e o compromisso mútuo entre trabalho e capital é essencial para o sucesso da organização e manutenção do emprego.

A dicotomia de Becker é fundamental para entendermos o que ocorre hoje no mercado de trabalho. O surgimento de formas efêmeras de vínculos talvez seja um sinal de desaparecimento ou pelo menos de diminuição do conhecimento específico, e, portanto, da redução do emprego permanente e de vínculos de longa duração. Possivelmente, o Direito do Trabalho esteve mais relacionado ao emprego permanente, ao mundo das relações estáveis de trabalho. Se hoje o conhecimento predominante é o geral, isso pode ajudar a compreender a chamada “crise” do Direito do Trabalho.

O tema é controverso, naturalmente. Mas vale a menção para homenagear a memória deste grande pensador, que inovou e contribuiu para o entendimento dos mercados e do comportamento humano.


 

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