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Dezembro/2012 - edição 162
Direito Desportivo

De princípio aberto a regra objetiva: o espaço do fair-play no futebol

Jean Nicolau 

Ao final de sua carreira, o atacante Luiz Adriano será provavelmente menos lembrado por seus gols do que pela afronta aos chamados valores do jogo que protagonizou no último dia 20 de novembro.

Rodaram o mundo as imagens do gol marcado pelo ex-jogador do Internacional na vitória fora de casa de sua atual equipe, o Shakhtar Donetsk (Ucrânia), contra os dinamarqueses do Nordsjaelland (2-5) pela Liga dos Campeões da Europa.

Ainda no primeiro tempo, o jogo é reiniciado depois de atendimento a jogador do time da casa. Willian (ex-Corinthians) chuta para a frente, com a intenção de devolver a bola ao time dinamarquês. Mas Luiz Adriano intercepta o passe do companheiro; sem marcação, ele parte em direção ao gol, dribla o goleiro, abre o placar e deixa perplexos os 23.000 presentes no estádio Farum Park de Copenhagen.

O gol de Luiz Adriano provocou reação imediata da União Européia de Futebol (UEFA). Um dia depois do incidente, a entidade anunciou que o caso seria levado a julgamento. Motivo: suspeita de violação aos princípios de boa conduta de uma entidade que, a bem da verdade, trabalha desde 2007 para melhorar a imagem do futebol sob o comando de Michel Platini, ex-capitão da seleção francesa.

A denúncia tomou como base o artigo 5 do código disciplinar da UEFA, que faz menção a princípios de lealdade, integridade e esportividade, e condena aqueles que não observam o fair-play com o intuito de levar vantagem sobre os adversários.

Se analisada ao pé da letra a regra já abria possibilidade de punição, a projeção internacional do evento fazia supor que o atleta não escaparia indene ao julgamento da federação europeia.
Dito e feito: pena de um jogo de suspensão, além da obrigação de prestar serviços por um dia em instituição de caridade indicada pela UEFA.

O fair-play é um mantra absoluto da FIFA cujas origens remontam a 1986 – ano em que Maradona usou a mano de Diós para eliminar a Inglaterra nas quartas de final da Copa do Mundo do México. O episódio desencadeou um movimento de âmbito global em favor da lealdade no futebol. A campanha, que conta apoio da principal entidade do futebol mundial desde os tempos de João Havelange (condenado recentemente por corrupção na Suíça), é representada pelo slogan My game is fair play. Algo como “meu jogo é jogo limpo”.

Nem os comprovados escândalos relacionados à entidade e a seus dirigentes – histórias para outra ocasião – impediram que aquela mensagem, tão vaga quanto sedutora, estampasse por duas décadas placas publicitárias de competições FIFA.

O que significa jogar limpo?

Agir conforme as regras, mas também conforme os bons costumes do jogo. Tal qual a devolução da bola ao time adversário após atendimento médico, possivelmente o mais nítido mandamento deste código de ética não escrito e, até então, de pouca aplicação prática.

O caso Luiz Adriano teve repercussão jurídica na medida em que, ao menos por uma vez, a violação aos valores do jogo representados pelo fair-play fundamentou decisão do tribunal da UEFA, que levou em conta não apenas a deselegância do ato em si considerado, mas também sua consequência prática (o gol).

Se é verdade que a punição esportiva parece ter sido a solução mais acertada ao caso, também é verdade que ela apenas será instrutiva, e não moralista, se não representar solução isolada; se outras condutas igualmente infames, como simulação e “catimba”, não forem ignoradas no futuro; e se a UEFA lutar tanto pela implementação do tal fair-play financeiro (ajuste das contas dos clubes) quanto pela moralização do jogo dentro das quatro linhas.

Se tudo isto não ocorrer, Luiz Adriano terá sido apenas mais um bode expiatório do futebol midiatizado.

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