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Boletim 193
A economia “gig”: um olhar adiante*
Hélio Zylberstajn – FEA/USP
 
 
Os americanos são especialistas em escolher expressões ou palavras pequenas e simples para designar situações. Graças à influência americana, hoje está na moda dizer que a economia mundial está ficando “gig”. É a “gig economy”. O termo vem do qualificativo associado a bandas de músicos amadores, em geral formadas por adolescentes, que se reúnem para tocar em festas nos sábados à noite. As performances não envolvem maiores compromissos porque são executadas mais por divertimento do que por obrigação. Muitas vezes, a palavra é usada até para qualificar até artistas profissionais quando fazem um improviso em algum evento. Transplantado para o mercado de trabalho, o termo gig significa trabalho com vínculo efêmero, descompromissado, não permanente.
 
Trabalho temporário, intermitente e mesmo irregular não constituem exatamente novidades. Professores substitutos, motoristas contratados por viagem, jornalistas freelances, trabalhadores diaristas na agricultura, profissionais por tarefa na Construção Civil, carregadores de móveis em mudanças, atores, fotógrafos, e mais recentemente, profissionais de TI são exemplos muito conhecidos de trabalhadores contingentes, contratados por meio de arranjos alternativos à formalização tradicional. A novidade é o nome gig usado para essas situações. Talvez a ideia de designar essas situações com um nome novo e chamativo se deva ao fato de o mercado gig utiliza largamente a tecnologia para promover o encontro entre a oferta e a demanda de trabalho. O exemplo mais expressivo é o Uber, uma plataforma que tem provocado conflitos no mundo todo, entre taxistas regulares e taxistas gig. 
 
Uma pergunta inevitável é: trata-se apenas de um novo nome para algo antigo, ou este segmento antigo do mercado está em expansão e adquirindo uma nova roupagem? A economia gig reflete apenas uma nova maneira de intermediar empregos efêmeros que já existiam, ou é um indício de que os contratos de trabalho sob demanda (on demand) se tornarão predominantes? Para responder, precisaríamos medir o tamanho do segmento gig e acompanhar sua evolução. As pesquisas rotineiras sobre o mercado de trabalho não estão ajustadas para fazer essa medição. Precisaríamos reformular os questionários que usamos hoje nas pesquisas de campo para conhecer com mais detalhes como cada trabalhador se insere no mercado de trabalho. 
 
E o que nos reserva o futuro? As ocupações que inevitavelmente a tecnologia criará serão preenchidas por trabalhadores permanentes ou por gigs? É possível conhecer antecipadamente os contornos das novas ocupações? Por mais difícil que seja “adivinhar” o futuro, pesquisadores já estão produzindo listas. Thomas Frey, por exemplo, do Instituto DaVinci, fala em 162 novas ocupações. Eis algumas:
 
Mergulhador técnico de suporte em informática de big data: No futuro, haverá quantidades inimagináveis de dados para armazenar em servidores. Como os servidores dissipam muito calor, a energia necessária para resfria-los será muito grande e uma possível solução será mantê-los submersos em águas frias. Os profissionais encarregados de fazer a manutenção precisarão de muita qualificação e um atributo extra: saber mergulhar.
 
Técnicos de segurança antissequestro de dados: Os hackers serão uma ameaça crescente para os sistemas de armazenamento de dados e a prática de rapto de dados seguida de chantagem se tornará atrativa. Os sistemas de dados precisarão de trabalhadores altamente especializados para sua proteção.
 
Arquitetos de realidades virtuais aumentadas: A realidade virtual será um recurso muito frequente para o ensino, para a produção e para o lazer. Arquitetos de ambientes virtuais terão grande demanda.
 
Os especialistas dizem que a tecnologia destruirá muitos empregos e ao mesmo tempo criará outros, dos quais as três ocupações são uma amostra. Olhando para trás, sabemos que tem sido assim, há muito tempo. A tecnologia cria e destrói ocupações e empregos. Até hoje, o balanço pendeu para a predominância da criação sobre a destruição. Não há razões para pensar que será diferente no futuro. 
 
Mas, certamente, haverá duas diferenças muito importantes em relação ao mercado de trabalho atual. Primeiro, predominarão ocupações que exigem alto nível de conhecimento e qualificação, como os três exemplos demonstram. Segundo, os três exemplos demonstram, que para executar as atividades inerentes às novas ocupações, os contratos gigs serão mais adequados do que os vínculos permanentes. 
 
Se essas previsões estiverem corretas, está mais do que na hora de fazer nossa lição de casa para construir o mercado de trabalho brasileiro do futuro. Temos duas tarefas. A primeira, educar a força de trabalho, por meio de um sistema escolar reformulado capaz de transmitir conhecimento e qualificação. Segundo, reformular por completo a legislação social e trabalhista, para oferecer proteção aos trabalhadores e ao mesmo tempo um ambiente estimulante para o trabalho.
 
*O autor utilizou duas referências para elaborar este texto:
 
BLS Commissioner; Why This Counts: Measuring “Gig” Work; http://beta.bls.gov/labs/blogs/2016/03/03/why-this-counts-measuring-gig-work/, March 03, 2016;
 
Shamah, D.; New jobs for humans in robot era: Big data deep divers, time hackers, biomeat factory engineers; The Times of Israel; March 3, 2016, http://www.timesofisrael.com/new-jobs-for-humans-in-robot-era-big-data-deep-divers-time-hackers-and-more/
 
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